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Title: A Morte (poema)


Hatecraft - October 24, 2009 04:21 PM (GMT)
A Morte

Numa noite um quanto sombria -
Raiava já quase o dia -
Aos asfaltos subiu a Morte
Com a angústia, sua consorte.

A arrogância, em pânico, fugia em círculos.
Absurdo! Regressavam ao leito do Espectro,
Com um esgar de terror nos olhos,
Mãos deitadas ao órgão pensómetro.

Eis que surge um guerreiro enlutado,
Glória das mais duras batalhas intelectuais,
E, fixando a Besta com os olhos afectados,
Arranca-lhe o capuz sem cerimónias e que tais.

Vácuo vazio, imaterial e inenergético saiu em liberdade,
Formando um frígido esqueleto antropomórfico e fero.
Ao invés da foice do desespero,
Papelada burocrática de suspensão de actividade.

E assim milhares de encapuzados invadiram a rua,
Olhando a lenda efémera de relance,
E o Sol passou a girar em torno da Lua.

Estacou o herói glorioso num transe
Quando verteu uma gota de sangue para o papel, da mão nua.
O pescoço pendeu e, com um bip, as luzes apagaram-se.


Hatecraft

JAS - October 24, 2009 09:15 PM (GMT)
Em meu nome e do Luigi, proponho a interpretação que se segue.

Primeiro, estabeleçemos quem é quem. No poema encontrámos vários “nomes”, a ver: «Morte», «angústia», «arrogância», «Espectro», «guerreiro enlutado», «Besta», «frígido esqueleto antropomórfico e fero», «encapuzados», «lenda efémera», «Sol», «Lua» e, por fim, «herói glorioso». Daqui, definimos algumas relações entre eles: considerámos «Morte», «Espectro», «Besta», «frígido esqueleto antropomórfico e fero» e «Lua» como sinónimos; «guerreiro enlutado», «lenda efémera» e «herói glorioso» como sendo a mesma personagem; e outras mais que evidenciaremos mais adiante.

Depois partimos para a construção da história, que considerámos da seguinte forma: existe uma personagem, a Arrogância, que se encontra face a face com a Morte. A primeira tentava fugir, mas sempre que o fazia, acabava por dar de caras novamente com o Espectro. Aterrorizada, deitou a mão à cabeça e pôs-se a pensar como haveria de escapar. Dessa «batalha intelectual» surge, então, um guerreiro herói, que faz frente à Besta e a revela como verdadeiramente é por baixo da sua capa: um «frígido esqueleto antropomórfico e fero». No entanto, a sua coragem atormentou o detentor do «foice do desespero» de tal forma que este o deixou em paz e afastou-se. De seguida, «milhares de encapuzados invadiram a rua», para ver a «lenda efémera» que derrotou a Morte. Porém, o herói tornou-se presunçoso e morreu, tendo voltado a ser Arrogância.

Em último lugar, analisámos a simbologia das personagens e os acontecimentos. Concluímos que a Arrogância e o herói são a mesma “pessoa”, tratando-se, claro, de um caso de dupla personalidade. Mas não é uma pessoa qualquer: considerámos que é a sociedade. O poema retrata, assim, pela nossa análise, uma crítica à sociedade. Esta tenta fugir aos problemas que enfrenta, problemas estes que são representados pela personagem Morte, mas sem sucesso. Então, todos os indivíduos da sociedade têm que deixar de ser arrogantes e passar a trabalhar em conjunto, de forma a ultrapassar as suas adversidades e que o Sol, símbolo de vida, luz, força, coragem e esperança, vença sobre a Lua, símbolo de escuridão. Todavia, as outras sociedades, chamadas no poema de «encapuzados», começam a dar-se conta do que a primeira fez e dão-lhe demasiado foco, pelo que a sociedade que o poema retrata volta a cair na arrogância, consequência do relevo exagerado que lhe havia sido atribuído, que se traduz na morte do «herói».

Chegámos, então, à conclusão de que, caso o nosso palpite inicial de que o poema é uma crítica à sociedade seja acertado, então, mais do que uma crítica à sociedade em geral, o poema é uma crítica àqueles que se deixam levar demasiado pela importância que lhes é dada, pela fama, pelo glamour, enfim, pela atenção de que recebem por tudo e por nada, qual Elsa Raposo aqui estampada.

E já agora, bom poema, está muito interessante e revela bastante criatividade e dom para a escrita! ;)

Ligeia - October 24, 2009 09:24 PM (GMT)
Estou assustada com essa análise, porque o poema é dedicado a mim. Eu sou igual à Elsa Raposo? Eu sofro de glamour?
Vou suicidar-me. ;_;

Anyway, parabéns aos dois pela óptima análise, muito original e bem justificada. ^~^

JAS - October 24, 2009 09:38 PM (GMT)
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!

Não faças isso! XD Desconhecíamos esse pormenor. xD Desculpa. :P E obrigado. :)

Hatecraft - October 25, 2009 01:32 PM (GMT)
Mais teorias?

A do Luigi e do JAS foi muito bem pensada e original, admirou-me, mas não foram ao encontro do que eu tinha em mente. Fracotes.

Hatecraft - October 25, 2009 05:34 PM (GMT)
Estrofe a estrofe:

Numa noite um quanto sombria -
Raiava já quase o dia -
Aos asfaltos subiu a Morte
Com a angústia, sua consorte.


Esta estrofe serve, claro, como introdução. Pretende-se aqui ajustar o aspecto mais visual do poema, e que o leitor imagine a típica Morte, com um capuz e uma foice (que neste caso, usei como personificação da angústia, dado que esta está aliada à morte, não imagino as pessoas a viver angustiadas sendo imortais). A ideia é terem uma imagem da morte a caminhar pela rua de uma cidade.

A arrogância, em pânico, fugia em círculos.
Absurdo! Regressavam ao leito do Espectro,
Com um esgar de terror nos olhos,
Mãos deitadas ao órgão pensómetro.


A arrogância são os seres humanos, meus amigos. Ninguém nos bate nesse aspecto. São indivíduos que fogem desesperados quando se deparam com a morte. É a nossa preocupação com o fim da vida, aqui personificada. Por mais que tentemos escapar, voltamos sempre a ela. Já agora, órgão pensómetro é o cérebro.

Eis que surge um guerreiro enlutado,
Glória das mais duras batalhas intelectuais,
E, fixando a Besta com os olhos afectados,
Arranca-lhe o capuz sem cerimónias e que tais.


Esta parte é que vos fez fugir um pouco ao tema, JAS e Luigi. Este guerreiro não é assim tão abstracto. É um simples cientista, filósofo, ou qualquer outra personagem erudita que descobre a verdade por detrás da morte. Esse guerreiro intelectual (enlutado - solitário, por um lado, perdidamente triste, por outro, porque sabe demasiado sobre a verdade para ser feliz, devido à sua racionalidade), desvenda os segredos por detrás da morte. Percebe-a. Contraria-a.

Vácuo vazio, imaterial e inenergético saiu em liberdade,
Formando um frígido esqueleto antropomórfico e fero.
Ao invés da foice do desespero,
Papelada burocrática de suspensão de actividade.


Aquilo que há por detrás da morte é isso: o nada. Uma verdade crua, fria, científica. Morte é a ausência de vida. Vida é uma coincidência nos processos universais. A morte é o cessar da vida. A vida é uma associação estruturada entre átomos e energia, ou até entre as particulas que vão para lá deles, remetendo para a natureza matemática da realidade. Penso que se pode perceber isso através dessa quadra (inenergético é um neologismo que significa não-energético).

E assim milhares de encapuzados invadiram a rua,
Olhando a lenda efémera de relance,
E o Sol passou a girar em torno da Lua.


Um simples terceto para dizer que nada foi como dantes. É apenas isso que significa o Sol girar em torno da Lua. Divulgada a descoberta do cientista, a verdade sobre a morte ficou ao alcance de todos. Punha-se a possibilidade de a contornar.

Estacou o herói glorioso num transe
Quando verteu uma gota de sangue para o papel, da mão nua.
O pescoço pendeu e, com um bip, as luzes apagaram-se.


Referindo-me à papelada burocrática da morte, a gota de sangue é uma assinatura no contracto. O nosso "herói" põe fim à sua vida deliberadamente, uma vez que a verdade sobre o universo é demasiado complexa para a mente humana (o "bip" era apenas uma outra dica para a instantaneidade da sua morte). Nós, como seres efémeros, fracos, não temos capacidade de lidar com o conhecimento total. Por um lado, se soubessemos a verdade para lá da morte poderiamos não aguentar tanta implicação para com tudo o resto e não aguentariamos também o esforço psicológico. Por outro, se a morte fosse contornada com todo esse conhecimento, dar-lhe-iamos maior importância e perceberiamos a necessidade de a vida ser apenas uma passagem. Por outras palavras, temos que estar prevenidos para a nossa morte e/ou de outros à nossa volta, encarando-a como um processo normal.

O poema foi escrito como forma de dedicatória num livro que ofereci à Ligeia, "O Cemitério dos Pianos", de José Luís Peixoto, que apresenta uma visão diferente sobre a morte, tanto quanto sei. Eu não li o livro.

JAS - October 25, 2009 05:42 PM (GMT)
És complicado. xD

Luigi! - October 25, 2009 06:13 PM (GMT)
Estou orgulhoso de nós xD quase que lá chegávamos (quase)
Aqui está a prova de que o Rúben é um génio ^^ ou então é apenas muito complicado.
Tive de pensar mais neste poema do que nos de Fernando Pessoa :headbang:








:luigi:

Hatecraft - October 25, 2009 06:25 PM (GMT)
Obrigado pela consideração <3

Luigi! - October 25, 2009 10:37 PM (GMT)
Esta muito bom, parabéns! (esqueci-me deste pequeno detalhe ^^)

A.Fonseca - October 26, 2009 07:41 PM (GMT)
*palmas* fogo estou boquiaberto com a tua genialidade... Nem tenho palavras para tal perfeição :wow:

Hatecraft - October 27, 2009 07:04 PM (GMT)
Daqui a bocado estou a babar-me. Vá, digam mal de mim, agora.

JAS - October 27, 2009 09:36 PM (GMT)
QUOTE (Luigi! @ Oct 25 2009, 06:13 PM)
Tive de pensar mais neste poema do que nos de Fernando Pessoa :headbang:

QFT!

Eu já disse mal de ti. :P Chamei-te complicado. xD Isso é uma coisa má, certo? :ashamed:

Roxas - January 18, 2010 06:43 PM (GMT)
Não me parece que a complicação neste caso seja um insulto. Tal como a arrogância e a teimosia podem ser negativas ou positivas o mesmo acontece com a complicação. No caso das artes as coisas complicadas costumam dar origem a algo belo.
Sim senhor Rúben, muito jeitinho para a poesia. Esta deveras acima do nível designado popularmente como "jeitosinho" mas também não é nenhuma obra prima. (Só para não parecer que estou para aqui a esbanjar o senhor administrador).

Hatecraft - January 18, 2010 06:51 PM (GMT)
QUOTE (Roxas @ Jan 18 2010, 06:43 PM)
Esta deveras acima do nível designado popularmente como "jeitosinho" mas também não é nenhuma obra prima.

Espera por melhor ;)

Muito obrigado, gostei do comentário.




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